sábado, 22 de dezembro de 2012

Poema de Natal


Poema de Natal

Vinicius de Moraes


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Privatizações

 
 
 
 
 
 
«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos».

 


 [José Saramago, "Cadernos de Lanzarote" - Diário III - pág. 148].



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

É Natal?








O Natal está a chegar, as luzes brilham nas ruas, as janelas transparecem felicidade, por breves dias, emanando um calor especial em aromas doces e saborosos. Reúne-se a família e alguns amigos em volta de presépios e árvores enfeitadas de fitas, chocolates e bolas reluzentes.
As lareiras com as pinhas dão um ambiente único ajudando o olfacto a sentir a Quadra que atravessamos.
Lá fora, o vento, o frio, ruas desertas deste ambiente, mostrando sombras e vultos em volta dos caixotes do lixo, procurando algum alimento, ou até um cartão mais grosso para fazer de colchão numa esquina qualquer que por momentos serve de abrigo. O odor do corpo por lavar é o mesmo do resto do ano, o apetite é igual a qualquer outro dia, as roupas, rasgadas mostram feridas e dores de quem pelas janelas atravessa o olhar, sonhando a Felicidade, o Amor, o presente que nunca mais chega.
É Natal! Mas as ruas continuam as mesmas, as sombras ainda lá se deitam, até chegar a manhã que acorda com desperdícios que serão banquetes colossais para quem já em nada acredita, nem em pais natal



Delfim Peixoto © ®

Kyrie



Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta

E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

 
José Carlos Ary dos Santos