quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Perguntas



Onde estavas
tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que viamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylon
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Alende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum.

Joaquim Pessoa

7 comentários:

BlueShell disse...

Um poema de J.P. dirigido a todos e a cada um de nós...porqu todos somos parte desta sociedade bárbara...e nada fazermos, ou fizeram os antepassads para deter mãos assassinas...
MUITO BOM

bj

Lídia Borges disse...

Um poema para arrebatar consciências e acordar os "mortos".

Um beijo

Maria disse...

Obrigada por terem passado aqui.

Beijos às duas.

Aníbal Raposo disse...

Olá,

Confesso que não conhecia este poema de Joaquim pessoa. Muito belo e incisivo.
Beijo

João Videira Santos disse...

Bom ano!

Maria João Brito de Sousa disse...

:) Bom ano, Maria, para que um dia não acordemos num Auschwitz qualquer, perto de nós...
Abraço grande!

Luiz Alfredo disse...

Eu estava escondido no porão
da escola Azul
lendo os poemas do neruda
apesar da penumbra
da fome
e do extremo calor
escutei os passos das botinas
verdes manchadas do rubro ódio
eles não me encontraram
a fita do dylon
estava na minha jaqueta
e eu li a última estrofe
do poema
o sangue que manchou
a branca neve dos andes
eu não estava lá
mas li o poema.

Luiz Alfredo - poeta