sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Nós calávamos


Saber é uma dor. E o soubemos:
cada dado saído de sua sombra
deu-nos padecimento necessário:
o rumor transformou-se nas verdades,
a porta escura foi cheia de luz,
e se retificaram essas dores.
A verdade foi a vida nessa morte.
Era pesado o saco do silêncio.

E ainda custava sangue levantá-lo:
eram tantas as pedras do passado.
Porém foi assim de valoroso o dia:
com uma faca de ouro abriu a sombra
e entrou a discussão como uma roda
rodando pela luz restituída
até ponto polar do território.

Agora as espigas que coroaram
a grandeza do sol e sua energia:
de novo o camarada respondeu
à interrogação do camarada.
Caminho, aquele, duramente errado
voltou, com a verdade a ser caminho.

Pablo Neruda

domingo, 11 de setembro de 2011

HOMENAGEM AO POVO DO CHILE


Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro

Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança

Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no Povo jamais vencido
– o Povo nunca se rende
mesmo quando morre unido

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Alguns traziam no rosto
um ricto de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
Uma vida à beira-mágoa.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.

José Carlos Ary dos Santos