quarta-feira, 6 de abril de 2011

À MEMÓRIA DE JOSÉ DIAS COELHO

Éramos jovens, falávamos do âmbar
ou dos minúsculos veios de sol espesso
...onde começa o verão; e sabíamos
como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os barcos,
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
do ventre, espaço denso, redondo, maduro,

dizias: espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave -
repara como voa, e poisa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela não a tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina, ou José - o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida pela brisa?

Eugénio de Andrade

2 comentários:

Graça Pires disse...

Sempre me comoveu imenso este poema de Eugénio de Andrade. Obrigada por trazê-lo aqui. Saio novamente comovida.
Um beijo.

Menina Marota disse...

Um poema que me diz muito...
Grata pla partilha.
Um abraço