segunda-feira, 25 de abril de 2011

SONATA DE ABRIL


















Trago a poesia das searas
Num anseio suspirado
Pela luz de Maio
Do primeiro dia
E de um Abril cantado
Folar de cravo
Sol em folia.
Emerge de novo a noite
Dos passos senhoreais
E gemem as doces brisas
Nos pinheirais.
Mas a voz será de canto
Se alguém quiser
Na arma a mão da criança
Se cravo houver.

(reedição)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

FANTÁSTICO


Outro olhar… http://regatosdaconcentracao.blogspot.com
E logo ao lado do divertido está fantástico!
Não passando também de incógnito,
Ficam bem juntos!
Não sei porquê,
Mas lado a lado, dão-se compostura….
Acho que não,
Tira talvez a graça ao divertido, será?
Porque no fantástico está o criado
Pela tentativa,
Que pode tornar-se extravagante
Ou até absurdo
Porém com capricho de devaneio.
O fantástico nasce da inquietação
E da dissociação que choca a razão.
Podem figurar fantasmas
E sem dúvida ou com ela,
O que só tem cabimento na imaginação.
Será mesmo?
Por ser oposto ou quase do real
Deixa de o ser?
Mas o fantástico é distinto do maravilhoso,
Dos contos de fadas, dos romances,
Onde o encantamento e a magia são a regra!
Fantástico é o intruso,
Um invasor do mundo submetido à técnica.
Coloca lá, a sua fonte de imaginação,
De mistério, de horror até
Nas fissuras do pensamento cientifico!
Na vida através de várias vias
Encontramo-nos frente a frente
Com fenómenos que surgem do vulgar,
Por vezes até maléficos,
Mas que não passam de fantásticos,
No contexto da vida real!
E assim nasce da inquietação
E da dissociação indo embater na razão!
E estes seres fantasmagóricos,
Afinal existem na realidade
Ou somente na imaginação?
Quem sabe?
Talvez como na actualidade,
Não passem de pura e cientifica ficção,
Como forma de tentar prever,
Conhecer o futuro,
Por tanto o desconhecer e temer!

Dina Ventura - "Only me"

quarta-feira, 6 de abril de 2011

À MEMÓRIA DE JOSÉ DIAS COELHO

Éramos jovens, falávamos do âmbar
ou dos minúsculos veios de sol espesso
...onde começa o verão; e sabíamos
como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os barcos,
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
do ventre, espaço denso, redondo, maduro,

dizias: espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave -
repara como voa, e poisa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela não a tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina, ou José - o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida pela brisa?

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 1 de abril de 2011

EUTANÁSIA DEMOCRÁTICA


Tela de Bernardino Costa . (B.C.) - Eutanásia Democrática

Na origem
É o sono provocado
Quando o fim está iminente
Para evitar uma morte dolorosa.
Para além de uma teoria
Tudo é apressado para a cura
Quando já não há remédio
Quando nada vale a pena
E quando a pena está decretada!
Se os governados
Influenciassem os governantes,
Ela seria democracia.
Mas tudo rumou para outras paragens
Restando apenas o pensamento
Que quem governa ajudará.
Mas vendo que não passou de sonho
Acordam…
E para que a dor não aumente
Em si e no que acreditam,
Resta entregá-la a si mesma
E à sua triste sorte,
A eutanásia
Para provar que morrera de inicio.
A realidade da crença anoitece
Nada mais restará do que ver
Ser enterrada na cova profunda
De onde nunca conseguiu sair.

Dina Ventura – “Only me”