sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

CONJUGAÇÃO DOS VERBOS


Hoje não estou contrariada
Estou no amanhã se chegar
Porque a raça humana é a culpada
Se tudo isto acabar.
Não entendo o que pretendem
Porque não respeitam a Vida
Porque não pensam nem medem
Os gritos da Terra aflita.
Não há respeito pelos demais
Nem pela Mãe natureza
Não passam de irracionais
E perde-se toda a beleza.
Os verbos são conjugados
Sempre na primeira pessoa
Mas nunca analisados
Por causa nobre e boa.
O quero vai aumentando
Mas perdendo o rumo certo
Porque se vai transformando
Na posse do que é incerto.
O posso desmanda o respeito,
Desajusta e vai desequilibrar
Se o actuar não encontra jeito
Ou forma de reajustar.
O fugir adoptou a solução
Para descurar responsabilidade
O fingir não presta atenção
Para o desculpar ter facilidade
E nesta desenfreada conjugação
Dá-se o tempo nos tons da moda
Desnotificada de argumentação
Desculpe…
Deixe não incomoda!

Dina Ventura - "Only me"

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

EU EM MIM


Gosto muito de pensar
Ver onde o pensamento chega
Ir atrás dele e voar
E vê-lo desaparecer

Brinco às escondidas com ele
Enquanto o tento decifrar
E quando chego bem perto
Acabamos por nos encontrar

E assim de mãos dadas
O pensamento e Eu
Fazemos longa caminhada
Até onde o Sol se escondeu

Ai, sentamo-nos em silêncio
No recato da imensidão
E lemo-nos sem questionar
Porque o tempo se perdeu
Sabemos que se ausentou
Para que ficássemos a sós
Porque sabia deixar
O que restava de nós.

Dina Ventura - "Only me"

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Adeus à hora da largada



Minha Mãe

(todas as mães negras
cujos filhos partiram)

tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico

somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.


Agostinho Neto