quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Perguntas



Onde estavas
tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que viamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylon
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Alende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum.

Joaquim Pessoa

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Soneto 13


Adoro esse teu ar quando me tocas.
Começas por ficar transfigurada
para, depois de unir as nossas bocas,
te tornares uma fera não domada.

Mordes-me o peito, os ombros, o pescoço.
As tuas coxas nas minhas mãos são abraço
tão forte e perigoso que não posso
responder a seguir pelo que faço.

Enlouqueço. Também sou uma fera
há dias sem comer, à tua espera
pra poder devorar-te e saciar-me.

A luta assim é própria de quem ama.
Se eu tiver de morrer, seja na cama
a vir-me nos teus braços e a passar-me.


Joaquim Pessoa
in Sonetos Eróticos & Irónicos & Sarcásticos & Satíricos
& de Amor & Desamor & de Bem e de Maldizer

domingo, 23 de outubro de 2011

Saudade

Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...

Pablo Neruda, in "Crepusculário"

domingo, 16 de outubro de 2011

Memória de Manuel da Fonseca

As Balas

Dá o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais o azeite nos é dado
Dá a cama e a mesa o verde pinho
As balas dão o sangue derramado

Dá a chuva o Inverno criador
As sementes da sulcos o arado
No lar a lenha em chama dá calor
As balas dão o sangue derramado

Dá a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos corações dá amor renascido
As balas dão o sangue derramado

Dá o Sol as searas pelo Verão
O fermento ao trigo amassado
No esbraseado forno dá o pão
As balas dão o sangue derramado

Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dão o sangue derramado

Do meditar, concluir, ir e fazer
Dá sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas dão o sangue derramado

Dá a certeza o querer e o concluir
O que tanto nos nega o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que o sangue derramado

Que as balas só dão sangue derramado
Só roubo e fome e sangue derramado
Só ruína e peste e sangue derramado
Só crime e morte e sangue derramado.

Manuel da Fonseca
(poemas para Adriano)

domingo, 9 de outubro de 2011

Dia 152

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.


Joaquim Pessoa

(Do livro ANO COMUM)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Nós calávamos


Saber é uma dor. E o soubemos:
cada dado saído de sua sombra
deu-nos padecimento necessário:
o rumor transformou-se nas verdades,
a porta escura foi cheia de luz,
e se retificaram essas dores.
A verdade foi a vida nessa morte.
Era pesado o saco do silêncio.

E ainda custava sangue levantá-lo:
eram tantas as pedras do passado.
Porém foi assim de valoroso o dia:
com uma faca de ouro abriu a sombra
e entrou a discussão como uma roda
rodando pela luz restituída
até ponto polar do território.

Agora as espigas que coroaram
a grandeza do sol e sua energia:
de novo o camarada respondeu
à interrogação do camarada.
Caminho, aquele, duramente errado
voltou, com a verdade a ser caminho.

Pablo Neruda

domingo, 11 de setembro de 2011

HOMENAGEM AO POVO DO CHILE


Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro

Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança

Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no Povo jamais vencido
– o Povo nunca se rende
mesmo quando morre unido

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Alguns traziam no rosto
um ricto de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
Uma vida à beira-mágoa.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.

José Carlos Ary dos Santos


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

LOUVOR DO COMUNISMO


É razoável, quem quer o entende. É fácil.
Tu não és nenhum explorador, podes compreendê-lo.
É bom para ti, informa-te dele.
Os estúpidos chamam-lhe estúpido, e os porcos chamam-lhe porco.
Ele é contra a porcaria e contra a estupidez.
Os exploradores chamam-lhe crime
mas nós sabemos:
ele é o fim dos crimes,
não é nenhuma loucura, mas sim
o fim da loucura.
Não é o enigma
mas sim a solução.
É o fácil.
Que é difícil de fazer.


Brecht

sábado, 16 de julho de 2011

*

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

...Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.

Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.

Pablo Neruda

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Portugal


Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente

Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional (que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas

Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador

Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade

Portugal
Estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete
Salazar estava no poder - nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre - nada de ressentimentos

Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe

Portugal
Gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

(Jorge Sousa Braga)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

INJUSTIÇA


A injustiça cansou-se.
Decidiu então saber porque o era.
Olhou-se no espelho e reflectiu-se.
Olhou-se, remirou-se, encarou-se
E amaldiçoou a sua gémea.
A outra cujo nome herdou,
Mas que ao aumentarem-no,
Tudo se transformou.
Só porque lhe colocaram um prefixo
Tudo nela mudou.
E afinal,
Qual das duas nasceu primeiro?
E com que direitos não a deixaram escolher?
Era injusto!
E chorou.
Que lhe vale esse “in” afinal,
Se apenas lhe trouxe peso, dor e condenação?
Deu-lhe estatuto, mas o oposto ao da irmã.
A quem todos apelam, idolatram, veneram
Mas não respeitam.
A ela desprezam-na, odeiam-na, maldizem-na
Mas é com ela que mais se identificam,
Que usam e abusam
Maltratam e acusam,
Desculpando-se com ela.
Isso é muito injusto...
Pensou a injustiça.
Que mundo este!
A justiça deixa o “in”
E coloca-o na irmã gémea,
Lava as mãos como Pilatos e diz:
Tu!
Tu és a culpada!
Foi um prefixo que tudo mudou…
E novamente a injustiça chorou.
Por ter sempre consigo o “in!”
Que não a deixa viver em paz.
Para a justiça se mascarar e se proteger
A injustiça teve de nascer!

Dina Ventura - in: Cresci com a Poesia

domingo, 8 de maio de 2011

O GRITO DO POVO


São uma multidão
Vão desistindo
Até ser um.
Não é rico,
Nem culto,
Passa a vulto.
Isolado
Tenta fazer-se ouvir
E grita
Para que não o ouçam.
Mas quem sabe
Se em uníssono
Elevaria a sua voz
De súplica
A regozijo
De vitória.

Dina Ventura - Maio 2011 - "Only me"

segunda-feira, 25 de abril de 2011

SONATA DE ABRIL


















Trago a poesia das searas
Num anseio suspirado
Pela luz de Maio
Do primeiro dia
E de um Abril cantado
Folar de cravo
Sol em folia.
Emerge de novo a noite
Dos passos senhoreais
E gemem as doces brisas
Nos pinheirais.
Mas a voz será de canto
Se alguém quiser
Na arma a mão da criança
Se cravo houver.

(reedição)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

FANTÁSTICO


Outro olhar… http://regatosdaconcentracao.blogspot.com
E logo ao lado do divertido está fantástico!
Não passando também de incógnito,
Ficam bem juntos!
Não sei porquê,
Mas lado a lado, dão-se compostura….
Acho que não,
Tira talvez a graça ao divertido, será?
Porque no fantástico está o criado
Pela tentativa,
Que pode tornar-se extravagante
Ou até absurdo
Porém com capricho de devaneio.
O fantástico nasce da inquietação
E da dissociação que choca a razão.
Podem figurar fantasmas
E sem dúvida ou com ela,
O que só tem cabimento na imaginação.
Será mesmo?
Por ser oposto ou quase do real
Deixa de o ser?
Mas o fantástico é distinto do maravilhoso,
Dos contos de fadas, dos romances,
Onde o encantamento e a magia são a regra!
Fantástico é o intruso,
Um invasor do mundo submetido à técnica.
Coloca lá, a sua fonte de imaginação,
De mistério, de horror até
Nas fissuras do pensamento cientifico!
Na vida através de várias vias
Encontramo-nos frente a frente
Com fenómenos que surgem do vulgar,
Por vezes até maléficos,
Mas que não passam de fantásticos,
No contexto da vida real!
E assim nasce da inquietação
E da dissociação indo embater na razão!
E estes seres fantasmagóricos,
Afinal existem na realidade
Ou somente na imaginação?
Quem sabe?
Talvez como na actualidade,
Não passem de pura e cientifica ficção,
Como forma de tentar prever,
Conhecer o futuro,
Por tanto o desconhecer e temer!

Dina Ventura - "Only me"

quarta-feira, 6 de abril de 2011

À MEMÓRIA DE JOSÉ DIAS COELHO

Éramos jovens, falávamos do âmbar
ou dos minúsculos veios de sol espesso
...onde começa o verão; e sabíamos
como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os barcos,
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
do ventre, espaço denso, redondo, maduro,

dizias: espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave -
repara como voa, e poisa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela não a tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina, ou José - o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida pela brisa?

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 1 de abril de 2011

EUTANÁSIA DEMOCRÁTICA


Tela de Bernardino Costa . (B.C.) - Eutanásia Democrática

Na origem
É o sono provocado
Quando o fim está iminente
Para evitar uma morte dolorosa.
Para além de uma teoria
Tudo é apressado para a cura
Quando já não há remédio
Quando nada vale a pena
E quando a pena está decretada!
Se os governados
Influenciassem os governantes,
Ela seria democracia.
Mas tudo rumou para outras paragens
Restando apenas o pensamento
Que quem governa ajudará.
Mas vendo que não passou de sonho
Acordam…
E para que a dor não aumente
Em si e no que acreditam,
Resta entregá-la a si mesma
E à sua triste sorte,
A eutanásia
Para provar que morrera de inicio.
A realidade da crença anoitece
Nada mais restará do que ver
Ser enterrada na cova profunda
De onde nunca conseguiu sair.

Dina Ventura – “Only me”

domingo, 20 de março de 2011

ENTRE O CÉU E A TERRA


Óleo - entre o céu e a Terra - de Bernardino Costa (B.C.)

É nessa linha o encontro.
Será infinito e eterno
Ou apenas a distância
Entre mim e o horizonte.
Percorro-o, persigo-o,
Mas ele torna-se
Na minha sombra.
Sombra sem objecto,
Sem referência nem rota.
É espaço
Que não pode ser percorrido
Andando.
Só se atinge imaginando.
Recorre-se à escadaria pensada
E percorre-se sem esforço
A subida íngreme.
É a sensação de voo
Em terra
Sem asas e com elas
Que não batendo
Se sente a brisa fresca
E envolvente
Que nos ergue acima de nós
E onde nos esperamos
Sem dor e em Glória.

Dina Ventura - "Only me"

terça-feira, 8 de março de 2011

TRAÇOS DE MULHER


óleo - traços de mulher - de Bernardino Costa (B.C.)

Contornos
Sem definição existem
Olha-se e está lá
Exposta
Crente e descrente
Persistem.
Encosta-se
Ao que representa
E está…
E lamenta
O que fazem de si.
Vai à luta, enfrenta
E grita, cresci.
Não é abordagem de tema
Não representa um esquema
E por isso vale a pena.
Não necessita representações
Nem falsas alusões
Quanto É.
Nada do que pensam
Poderá ser
Porque o que realmente importa
Nem sempre se vê.
Refaz-se, compõe-se
Ilumina-se e sobrepõe-se.
Não precisa ser lembrada
Porque nunca será esquecida
Quando a ponte é quebrada
Volta a ser reerguida.

Dina Ventura - "Only me"

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

CONJUGAÇÃO DOS VERBOS


Hoje não estou contrariada
Estou no amanhã se chegar
Porque a raça humana é a culpada
Se tudo isto acabar.
Não entendo o que pretendem
Porque não respeitam a Vida
Porque não pensam nem medem
Os gritos da Terra aflita.
Não há respeito pelos demais
Nem pela Mãe natureza
Não passam de irracionais
E perde-se toda a beleza.
Os verbos são conjugados
Sempre na primeira pessoa
Mas nunca analisados
Por causa nobre e boa.
O quero vai aumentando
Mas perdendo o rumo certo
Porque se vai transformando
Na posse do que é incerto.
O posso desmanda o respeito,
Desajusta e vai desequilibrar
Se o actuar não encontra jeito
Ou forma de reajustar.
O fugir adoptou a solução
Para descurar responsabilidade
O fingir não presta atenção
Para o desculpar ter facilidade
E nesta desenfreada conjugação
Dá-se o tempo nos tons da moda
Desnotificada de argumentação
Desculpe…
Deixe não incomoda!

Dina Ventura - "Only me"

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

EU EM MIM


Gosto muito de pensar
Ver onde o pensamento chega
Ir atrás dele e voar
E vê-lo desaparecer

Brinco às escondidas com ele
Enquanto o tento decifrar
E quando chego bem perto
Acabamos por nos encontrar

E assim de mãos dadas
O pensamento e Eu
Fazemos longa caminhada
Até onde o Sol se escondeu

Ai, sentamo-nos em silêncio
No recato da imensidão
E lemo-nos sem questionar
Porque o tempo se perdeu
Sabemos que se ausentou
Para que ficássemos a sós
Porque sabia deixar
O que restava de nós.

Dina Ventura - "Only me"

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Adeus à hora da largada



Minha Mãe

(todas as mães negras
cujos filhos partiram)

tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico

somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.


Agostinho Neto

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Em memória de Ary dos Santos

NÃO PASSAM MAIS

Em nome dos nossos braços
em nome das nossas mãos
em nome de quantos passos
deram os nossos irmãos.
Em nome das ferramentas
que nos magoaram os dedos
das torturas das tormentas
das sevícias dos degredos.
Em nome daquele nome
que herdámos dos nossos pais
em nome da sua fome
dizemos: não passam mais!

E em nome dos milénios
de prisão adicionada
em nome de tantos génios
com a voz amordaçada
em nome dos camponeses
com a terra confiscada
em nome dos Portugueses
com a carne estilhaçada
em nome daqueles nomes
escarrados nos tribunais
dizemos que há outros nomes
que não passam nunca mais!

Em nome do que nós temos
em nome do que nós fomos
revolução que fizemos
democracia que somos
em nome da unidade
linda flor da classe operária
em nome da liberdade
flor imensa e proletária
em nome desta vontade
de sermos todos iguais
vamos dizer a verdade
dizendo: não passam mais!

Em nome de quantos corpos
nossos filhos foram feitos.
Em nome de quantos mortos
vivem nos nossos direitos.
Em nome de quantos vivos
dão mais vida à nossa voz
não mais seremos cativos:
o trabalho somos nós.
Por isso tornos enxadas
canetas frezas dedais
são as nossas barricadas
que dizem: não passam mais!

E em nome das conquistas
vindas dos ventos de Abril
reforma agrária controlo
operário no meio fabril
empresas que são do estado
porque o seu dono é o povo
em nome de lado a lado
termos feito um país novo.
Em nome da nossa frente
e dos nossos ideais
diante de toda a gente
dizemos: não passam mais!

Em nome do que passámos
não deixaremos passar
o patrão que ultrapassámos
e que nos quer trespassar.
E por onde a gente passa
nós passamos a palavra:
Cada rua cada praça
é o chão que o povo lavra.
Passaremos adiante
com passo firme e seguro.
O passado é já bastante
vamos passar ao futuro.

(Ary dos Santos)
(O sangue das palavras)

sábado, 1 de janeiro de 2011

NOVO ANO COM LUZ E CONSCIÊNCIA


Os votos são meus
Mas a Vontade e Luta são tuas
Para
Que alcances tudo o que desejas
Que melhores o que de mau encontraste
Que te renoves para ajudar a renovar.
Na vida
Existe o que a Vida nos dá
O que nela buscamos
Quando nos encontramos na verdade.
Não tenho mais palavras
Todas foram inventadas
Apenas possuo
De novo
O que na hora encontro.
Neste momento,
Um Desejo
Que a partir de hoje
Não seja apenas e só mais um ano
E sim
Tempo de mudança
Para a Consciência
De que devemos
Podemos
E temos
A Obrigação
De sermos
Humanos de Verdade.
Esqueçam as palavras
Datadas
Programadas
Bonitas
Ou recomendadas
Sintam bem dentro do Vosso Coração
A Razão da existência
A consciência
De que nada tem valor
Se o valor não tiver Alma.
Acredito
Que mesmo que quem não acredita
Que a Vida é mais do que ter
Não conseguirá,
Por momentos esquecer
o Sofrer.
É na hora da obrigatória alegria
Que se deve Olhar
E reflectir.
Peço perdão
Se não escrevo algo lindo,
Maravilhoso e de festa
Mas não consigo deixar de Ver
O que não presta.
Assim sou.
Não consigo ter alegria
Quando o Mundo sofre
Apesar de em cada hora
Transformar a noite em dia
Mantendo a esperança
De rumarmos à verdadeira Alegria
E acreditarmos de verdade
Na luz da consciência

Dina Ventura - "Only me" - 31 de Dezembro de 2010