quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Minha mãe que não tenho

Minha mãe que não tenho meu lençol
de linho de carinho de distância
água memória viva do retrato
que às vezes mata a sede da infância.

Ai água que não bebo em vez do fel
qua a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que não oiço ai mãe ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.

De que Egipto vieste? De qual Ganges?
De qual pai tão dostante me pariste
minha mão minha dívida de sangue
minha razão de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho minha força
sumo da fúria que fechei por dentro
serás sibila virgem buda corça
ou apenas um mundo em que não entro?

Minha mãe que não tenho inventa-me primeiro:
constrói a casa a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.

Ary dos Santos

2 comentários:

Lídia Borges disse...

Ary dos Santos... Gosto muito!

Este aproximar à ideia de "Mãe" a água, o linho, pureza - desejo de regresso à origem?

P.S. Sabe, todos os meus poemas são de amor. Mas não gosto de confessá-lo!

Um beijo

Pedrasnuas disse...

"MÃE,ABRE OS BRAÇOS,AO MENOS DIZ QUE SIM, DIS QUE ME VÊS AINDA, QUE ÉS A ETERNA MULHER ENTRE AS MULHERES,QUE NEM A MORTE TE AFASTOU DE MIM"

ADORO OS POEMAS DE ARY DOS SANTOS

BEIJINHO