sábado, 25 de dezembro de 2010

Litania para este Natal (1967)

Vai nascer esta noite á meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo

David Mourão-Ferreira

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

QUERO


QUERO
Que nasça de mim o que sou.
Buscar em mim a essência
Tratar do que brotou
E olhar-me em consciência.
Quero
Partir para qualquer lugar
Alcançar o imenso do Ser
Poder erguer a voz e gritar
Partilhar o meu bem-querer.
Quero
Atravessar o azul do céu
Ir ao infinito buscar
O que por direito é meu
Mesmo sem alcançar.
Quero
Marcar encontro comigo
Repousar na imensidão
Não esquecer quem é amigo
Deixar de lado a solidão.
Quero
Repartir o que alcançar
Mesmo o que não sei possuir
Porque me refugio no dar
Sem precisar exibir.

Dina Ventura - in: Cresci com a Poesia

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Minha mãe que não tenho

Minha mãe que não tenho meu lençol
de linho de carinho de distância
água memória viva do retrato
que às vezes mata a sede da infância.

Ai água que não bebo em vez do fel
qua a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que não oiço ai mãe ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.

De que Egipto vieste? De qual Ganges?
De qual pai tão dostante me pariste
minha mão minha dívida de sangue
minha razão de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho minha força
sumo da fúria que fechei por dentro
serás sibila virgem buda corça
ou apenas um mundo em que não entro?

Minha mãe que não tenho inventa-me primeiro:
constrói a casa a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.

Ary dos Santos

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

RODOPIAR SOBRE A ESSÊNCIA


RODOPIAR
Termina num círculo
Que nos pode entontecer
E para fugir ao ridículo
É melhor retroceder.
SOBRE
Antecedentes esquecidos
Não é preciso parar
Bastam serem mexidos
Para pode continuar.
A
Força que nos fará crescer
Não poderá estar cansada
Porque morrerá ao nascer
Se não for alimentada.
ESSÊNCIA
Que quando é esquecida
É esvaziado o conteúdo
A vida perde o sentido
E empurra-nos para o fundo
Mas há que recuperar.
Tentar parar em pleno
Para poder descansar.
Dominado pelo cansaço
Prostrar-se perante ele
E esperar
Que nasçam novas forças.
Enquanto esperas
Deixa-te levar
Envolver por toda a vida e magia
E sem receios acreditar
Que renasçam
As forças que crescer te farão.
Não lutes quando já não tens energia
Porque tudo morrerá ao nascer
Desfeito em pedaços
Em tiras.
E serão tantas
Que jamais conseguirás entender.
Por vezes é necessário deixar tudo
Para de novo tudo começar.
Será um interregno maior ou menor
Mas que irá fortalecer
Para depois de tudo deixar
De novo tudo renascer.
E no rodopio da vida
Esquece-se o que a leva à falência
Agarramo-nos ao que nos atormenta
Esquecendo a essência.

Dina Ventura - In. CRESCI COM A POESIA

sábado, 4 de dezembro de 2010

Para lá da linha ténue

Tenho fome e sede
e como tenho estas necessidades
tento desvendar os segredos,
os sons da noite
os silêncios esquecidos do dia…

As horas cantam
o sono amortece
o canto das cigarras
para lá da linha ténue
em que a fome e a sede se saciam…

O sono é parente morno
da insónia que veste a noite
de fragmentos da aurora…

Os raios de sol
aconchegam os segundos
que latejam no relógio nas dobras do tempo,
a fome e a sede são mutações
descodificadas na efemeridade do vazio…

Ana Coelho

Resistir


Dobrar na boca o frio da espora
Calcar o passo sobre lume
Abrir o pão a golpes de machado
Soltar pelo flanco os cavalos do espanto
Fazer do corpo um barco e navegar a pedra
Regressar devagar ao corpo morno
Beber um outro vinho pisado por um astro
Possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.



Joaquim Pessoa

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

TRAIÇÃO AO EU


O Eu
Sente-se enganado
Por querermos
Parecer.
É muitas vezes
Atraiçoado
Pelo que sabe
Não ser.
A razão incomodada
Arruma tudo ao seu jeito
E o que não quer reconhecer
Aproxima do perfeito.
O imperfeito que não é eu
Encosta ao imperfeito que é
Questiona porque nasceu
Parecendo o que não é.

Dina Ventura - in: Cresci com a poesia

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada purpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

Pablo Neruda