quarta-feira, 29 de setembro de 2010

OS PRAZERES DA JUVENTUDE

Ao fim de 24 jogos perdidos,
o time ganhou o desafio.
O público inundou o campo, desceu à cidade,
e durante horas interrompeu o trânsito, bebeu na rua,
quebrou montras, partiu mesmo os faróis de carros
da polícia que, risonha, comungava
naquele entusiasmo regional e jovem
por um triunfo tão longamente ansiado.

Uma centena de pessoas manifesta-se na rua
(contra uma «vitória» que não se vê no Viet-Nam)
e os cacetes desabam, a prisão enche-se,
porque interromperam o trânsito, incitaram à desordem,
e resistiram malignamente à autoridade
que os mandou dispersar.

Jorge de Sena

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Vento desértico

Recolho o teu rosto das gotas de chuva
uma tarde de chuviscos inesperados!
Nego a nuvem cinza
que se infiltra nos raios de sol.

Comungo da sede
a nudez das portas entreabertas
que bailam ao vento desértico,
molda os vidros estilhaçados
neste tecto sem chão!

Os pensamentos são o anverso
do agitado silêncio
que assobia nas cordas de um violino,
enigmas de ilusão
que invocam em vão
os cálices sussurrantes
de uma voz amortalhada!

Na tribuna do olhar
as gotículas escorrem
sem pressa com a transparência de um cristal,
contemplo com o tacto do silêncio
a alma que se enrola
num manto invisível
despido pela lua cheia…

Tento limpar os delitos
que se arrastam
nas vestes negras de uma Primavera
esquecida pelas sementes
do grande cultivador de sonhos.

Os meus olhos bebem
o ébrio crepúsculo deste destino
…o violino toca,
toca no altar
coberto de açucenas e jasmins
que nutrem a ilusão dos fragmentos que restam…

Ana Coelho

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A noite na ilha


Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.

(Pablo Neruda)
(12 de Julho de 1904 - 23 de Setembro de 1973)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Metamorfose

São tantas as ocasiões
que me pergunto,
que faço eu aqui?
Sem saber os traços definidos
de uma qualquer razão…

Talvez sejam os teus olhos
os freixos de orvalhos
vestidos de laços soltos na brisa
de uma coroa de lírios brancos…

Ou então as palavras trocadas
na penumbra do cântico de um bando
de rouxinóis com as penas
em ténues azul florais
despidos na claridade
dos finos raios de sol…

Saiu
caminho por outro trilho
…retomo
aos passos antigos
porque mesmo sem saber
tenho aqui a metamorfose ditosa
no vértice de cada desfolhada…

Assim largo as questões
aprisiono os verbos na calada dos versos
recolho todos os cristais
no regaço aprumado
em que as respostas se libertam
mesmo sem eu saber o porquê…

Ana Coelho

Ilha



Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente
promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente
Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias


David Mourão-Ferreira


sábado, 11 de setembro de 2010

Hoje, é este o poema que deve estar aqui!

HOMENAGEM AO POVO DO CHILE

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro

Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança

Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no Povo jamais vencido
– o Povo nunca se rende
mesmo quando morre unido

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Alguns traziam no rosto
um ricto de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
Uma vida à beira-mágoa.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.


José Carlos Ary dos Santos